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Gravura: José Francisco Lopes, o Guia Lopes
O Fogo da Fronteira · Livro I — Belavistense · Capítulo II

O homem do Jardim

Fazenda Jardim, sertão entre o Miranda e o Apa, novembro de 1864

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A fazenda acordava antes do dono, mas nunca muito antes.

Quando José Francisco Lopes pisou o terreiro, ainda de noite fechada, o forno já tinha brasa e o curral já tinha movimento — e ele fez o que fazia todas as madrugadas há mais de vinte anos: parou no meio do pátio, de chapéu na mão, e escutou a fazenda no escuro. Diziam os peões, entre o respeito e a risada, que o patrão conferia o mundo de ouvido. Vaca com bicheira muda o berro. Cavalo com pedra no casco muda o passo. Filho com segredo muda o jeito de dar bom-dia.

Naquela madrugada, o mundo soava certo. Foi a última vez que soou.

— Café, Chico — disse Dona Senhorinha da porta, que era a única pessoa viva a chamá-lo de Chico, e por isso mesmo a única a quem ele obedecia sem discutir.

A casa do Jardim não era grande, mas era funda — quarto atrás de quarto, como os anos de um casamento. Ali tinham nascido os filhos; ali se pendurava arreio bom, santo antigo e a espingarda que quase nunca descia da parede. Na mesa comprida, a essa hora, já se sentava a família inteira: os meninos maiores com sono de gente grande, os pequenos com fome de passarinho, e no meio deles Senhorinha, servindo e governando, porque fazenda tem dois donos e só um usa espora.

— Hoje eu desço com os queijos pro passo — anunciou o filho mais velho.

— Hoje ninguém desce — disse Lopes, soprando o café.

Fez-se na mesa aquele silêncio que as crianças conhecem melhor que os adultos.

— O Elias chega hoje — explicou o pai, por fim. — Mandou recado de Nioaque. Eu quero todo mundo em casa quando ele chegar.

O mascate Elias era o correio que o sertão tinha: mulas carregadas de fazenda, agulha, sal, remédio de vidro e — mais valioso que tudo — papel. Carta, jornal, boato com assinatura. Viajava as léguas entre Miranda, Nioaque e as fazendas do Apa duas vezes por ano, e sua chegada era feriado: negócio de dia, viola de noite.

Dessa vez não houve viola.

Elias chegou com o sol já caindo, e Lopes soube antes do primeiro cumprimento que a notícia era ruim — porque o mascate, que sempre entrava gritando o preço de tudo, entrou calado, e porque não desceu da mula pelo lado de sempre, como homem que já vem pensando em ir embora.

— Compadre — disse Elias, e tirou de dentro da camisa, embrulhado em pano encerado, um jornal dobrado em quatro.

Era um número da corte, Jornal do Commercio, atrasado de quase dois meses. Lopes leu de pé, na luz que restava, os filhos em roda, Senhorinha com a mão parada em cima do ombro do menor. Leu duas vezes, porque na primeira as palavras recusaram-se a formar sentido: o vapor brasileiro Marquês de Olinda, que subia o rio Paraguai levando a bordo o novo presidente da província de Mato Grosso, foi aprisionado a tiros de canhão pelas forças do governo de Assunção, no dia 12 de novembro…

— Tem mais — disse Elias, baixo. — Isso aí é o de papel. Agora o de boca: em Miranda se diz que o López fechou o rio. Que não passa mais canoa, nem carta, nem alma. Mato Grosso ficou de fora do Brasil, compadre. A porta do sul trancou.

— E a corte?

— A corte é longe. — Elias cuspiu no chão, sem raiva, só cansaço. — Pra chegar soldado aqui de São Paulo, por terra, é meio ano de marcha. Quem mora perto da onça é que escuta o rugido primeiro.

Lopes dobrou o jornal com um cuidado estranho, de quem dobra mortalha. Olhou os campos que escureciam — o pasto bom descendo pro córrego, as pontas de gado que eram o trabalho da vida dele, o caminho que sumia no rumo do Apa, três dias de sela dali.

— Vão invadir — disse, sem levantar a voz, como quem constata chuva vindo. — Não é ataque de vizinho brigado. Homem que prende presidente de província não tá fazendo desaforo: tá abrindo guerra. E guerra aqui em cima só tem um caminho pra andar. — Ele apontou com o queixo o sul inteiro. — O nosso.

— Deus que não, Chico — disse Senhorinha.

— Deus que não — concordou ele. — Mas Deus ajuda quem sela o cavalo.

Naquela noite, depois que a casa dormiu, Lopes acendeu o lampião do quarto dos arreios e fez três coisas que os filhos só entenderiam muito depois.

Desceu a espingarda da parede e limpou-a peça por peça, devagar, como quem reza um terço de ferro.

Abriu o caixote de folha-de-flandres onde guardava os papéis da vida — títulos da terra, batistérios, uma carta do pai já amarelada — e separou tudo em dois embrulhos: um para ficar, outro para poder fugir.

E por último, na mesa da cozinha, ditou para o filho mais velho, que tinha a letra melhor, um bilhete curto para o comandante do destacamento de Miranda. Ao senhor comandante. Os campos entre o Miranda e o Apa não têm defesa que preste e têm caminho que o inimigo conhece. Este que escreve conhece melhor. No que precisar da minha pessoa, do meu cavalo e do meu rumo, é mandar palavra. José Francisco Lopes, do Jardim.

— Pai — disse o menino, soprando a tinta. — Se a guerra vier… nós vamos embora?

Lopes demorou a responder. Na parede, a sombra dele tremia com a chama, grande demais para a casa.

— Filho, tem duas qualidades de homem quando o fogo vem. Tem o que corre do fogo, e esse se salva primeiro e se acaba depois, porque fica sem chão. E tem o que aprende o caminho por dentro do fogo. — Ele apagou o lampião. — Nós somos da segunda qualidade. Agora dorme.

Ao sul, naquela mesma hora, do outro lado de muitas léguas de campo escuro e sem saber que já eram personagens da mesma história, sessenta mil homens recebiam ordem de marcha.

E no passo do Apa, um guri chamado Martim sonhava com um rio que pegava fogo de margem a margem — e acordou sem saber que tinha sonhado a verdade.

Nota do Arquivo VivoSão históricos: o aprisionamento do vapor Marquês de Olinda (12/11/1864) com o presidente designado de Mato Grosso a bordo — o estopim da guerra —, o isolamento da província e a fragilidade militar da fronteira sul de Mato Grosso. José Francisco Lopes e sua família na fazenda da região do Jardim são históricos; Dona Senhorinha é o nome consagrado pela tradição. O mascate Elias, os diálogos e o bilhete são dramatização.
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